sábado, 9 de julho de 2011

LANÇAMENTO DE "O FANTÁSTICO NA PROSA ANGOLANA", EM LISBOA





Quando me veio a ideia de elaborar a presente antologia, de imediato se me colocou a grandeza e delicadeza da tarefa, face à vasta gama de escritores nacionais, e sobre o que eu poderia considerar de imaginário, de fantástico, de real e ou de irreal, entre muitas outras considerações, numa sociedade em que as fronteiras entre o mundo visível e aquele invisivel sempre estiveram tão intimamente ligadas.

Face à oralidade das sociedades africanas, da qual Angola não teria como escapar, este universo de ambiguidade não poderia deixar de ter residência visível nas diversas obras dos escritores angolanos que, ao longo dos séculos XIX e XX, foram férteis na produção de textos em que diversos mundos se interligavam com acontecimentos estranhos, acontecimentos que com muita frequência fugiam ao entendimento de serem ou não reais face à percepção do aceitável e ou do credivel.

Óscar Ribas, um dos mais conceituados nomes da etnografia nacional, nascido em 1909 e já falecido, autor de vasta obra em que recolheu a extremamente valiosa literatura oral africana na zona de Luanda, afirmara que os contos ordinariamente reflectem aspectos da vida real. Neles figuram as mais variadas personagens: homens, animais, monstros, divindades, almas. Se por vezes, a acção decorre entre elementos da mesma espécie, outras no entanto desenrolam-se misteriosamnete, numa participação de seres diferentes.

Confrontei-me, deste modo, com a questão do fantástico, algo que não pode ser explicado via racionalidade, e com as possibilidades do verosimil versus o inverosimil, o real e o sonho, o natural e o sobrenatural. O que procurar, o que e como inserir? Seria o fantástico, o estranho, o maravilhoso e a fantasia contidos na panóplia de obras de escritores angolanos a mesma coisa? Quedar-me-ia unicamente com o texto, vamos chamá-lo por contraposição adulto, ou igualmente com o tradicional, o juvenil e o infantil? Na oralidade africana, contar, o sunguilar, é parte intrinseca da vida. É às noites, sob o agasalhar dos fogos, que as tradições, os usos e costumes são propagados de geração em geração, através dos contos, das estórias, das adivinhas, dos provérbios. Contar, relatar, gravar na memória colectiva é uma das acções mais antigas da história da humanidade, reflectidas em testemunho nas grutas espalhadas pelo mundo inteiro.

Acho que me preocupei mais com os aspectos do estranho, do maravilhoso, talvez mesmo até do insólito, na recolha que levei a cabo, deixando o fantástico maioritariamente para a literatura tradicional e para a literartura infantil, narrativas em que o narrador ou o escritor mais se preocupa com a mensagem, com a valorização moral e com um fim que transmita uma postura considerada de funcional na sociedade.

Tzvetan Todorov, um filosófo e linguista búlgaro desde 1963 a viver em Paris, no seu livro “Introdução à Literatura Fantástica”, estabelece normas a respeito do fantástico na literatura, diferenciando entre o fantástico, o estranho e o maravilhoso. Segundo ele, em um mundo que é o nosso, que conhecemos (infira-se ocidental e moderno), sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar.

Quem percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então essa realidade está regida por leis que desconhecemos. O fantástico ocupa o tempo dessa incerteza. Assim que se escolhe uma das duas respostas, deixa-se o terreno do fantástico para entrar em um género vizinho: o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural.

Não irei referir nesta apresentação o que me levou a incluir um e não outro escritor, até porque a linha divisória não me permitiu estabelecer fronteiras entre o estranho, o maravilhoso sempre existindo um subgénero transitivo entre eles. Segundo Todorov, seja como for, não é possível excluir de uma análise do fantástico, o maravilhoso e o estranho, géneros aos quais se sobrepõe. Acho que os contos e os excertos de textos mais largos que me serviram de base, englobam-se largamente no objectivo a que me propuz.

Fragata de Morais

Coordenador



Este acontecimento decorreu, no dia 30 de Junho, na Feira Internacional do Artesanato, no Pavilhão de Angola", sob os auspícios da Casa de Angola em Portugal.

O livro será, igualmente e muito em breve, lançado aqui em Luanda, pela Editora Mayamba.

Prefácio

Para mim, que raras ou nenhumas incursões tenho no domínio do ensaio ou da crítica literária, foi uma agradável surpresa ser convidado a prefaciar a presente obra.

Não o farei na forma convencional, rebuscando teorias e pontos de vista, sem me furtar a elas no entanto, mas sim ancorando-me no lado simbólico do convite e no apreço que me merece a iniciativa.

Como se sabe, desde o alvor da Independência Nacional e mesmo no período imediatamente anterior, assistimos a um grande movimento em torno da ideia de recuperação e valorização do imaginário ou dos imaginários angolanos através da literatura. Muitos títulos foram publicados com esta perspectiva, porém, até à saída da presente obra, não se tinha uma ideia de conjunto sobre o que efectivamente havia acontecido no domínio do fantástico na Literatura Angolana, isto desde Cordeiro da Matta aos nossos dias. Com efeito, até à edição desta Antologia, a questão do fantástico que, no nosso ver, não se limita apenas às práticas mágicas, mas estende-se também à aparição de factos inexplicados e teoricamente inexplicáveis não foi tratado, quer de forma sincrónica, quer de forma diacrónica.Vem pois

esta Antologia suprimir aquela lacuna e dar-nos uma panorâmica do fantástico na literatura angolana, este delicado género que no dizer de Jean Bellemin – Noél, vive da ambiguidade e no qual o real e o imaginário se devem reencontrar e até se contaminar. Isto mesmo poderá levar-nos a compreender o critério de escolha dos textos que compõem a presente obra de Fragata de Morais. Escreveu o crítico francês Jacques Chevrier que durante muito tempo a África “foi uma reserva de exotismo onde os autores de sucesso vinham buscar sem vergonha o pitoresco e a cor local reclamados pelo público Europeu ávido de sensações”. Cremos que, felizmente, tal situação se encontra ultrapassada como se pode comprovar por muitas obras africanas e, neste caso angolanas, que descrevendo a irrupção do sobrenatural na realidade, como a definição do Todorov mencionada pelo autor desta antologia, permite-nos fruir destes valores de maneira autónoma e dar um contributo ao universo simbólico e ao imaginário da língua portuguesa, no nosso caso. Por tal facto ganha notoriedade a presente obra, assim como pela circunstância da mesma vir demonstrar que o fantástico não é um género menor nem só reservado a crianças e jovens mas, pelo contrário, é um terreno muito vasto e rico que de resto revelou grandes nomes da literatura universal como Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo), Théophile Gautier (A Cafeteira), Guy de Maupassant (Le Horla et la Chevelure), Merimée (La Vénus d’Ille), etc. Estas referências servem-nos para realçar a importância desta obra e do trabalho dos autores que deram e dão corpo à Literatura Fantástica Angolana, seguramente um percurso a explorar por muitos dos nossos autores que fazem o orgulho das letras angolanas.

António Antunes Fonseca

ALGUNS MOMENTOS DA MEMÓRIA