terça-feira, 23 de junho de 2009

A SONHAR SE FEZ VERDADE - CONTOS JUVENIS


O CACIMBO


Cedinho pela manhã, quase como sempre, enveredei pelo carreiro molhado que me conduzia à figueira brava. O frio apressava-me os passos e obrigava a que encolhesse os ombros, esticando os braços ao longo do corpo.
Tinha eu então nove anos e vivia a idade mágica do mato na qual, o caçador terrível que me suponha, fisga pendendo do bolso traseiro das calções remendados, kalubungu amarrado à cintura num cinto improvisado, partia para a matança magnífica das rolas matinais.
O capim, húmido das lágrimas nocturnas dos ndoki vadios, bordejava o estreito carreiro que aportava à lavra junto à qual se impunha a árvore sonhadora que me prendava quase todas as manhãs com uma sinfonia estrondosa de cru-crus, tchuin-tchuins, tfris-tfius, miriades infindáveis de cantos de aves.
Ao aperceber-me do bando de rolas encoleiradas do preto da dor, tive a deleitosa certeza de que, mais uma vez, sairia vitorioso da batalha que almejava. Por desejo meu, nem filho delas sobraria para cru-cruar seus óbitos tristes à floresta acolhedora. A pedra partiria, do cabedal entesado da fisga, certeira, tiro sibilante após tiro, o chão povoado de cadáver castanho emplumado, um após o outro.
Tinha eu então nove anos de feitiços e artes que hoje miseravelmente não possuo.
Tal era a minha insaciabilidade e a minha coragem, já que cedinho, de madrugada, os ndoki transformados em cobras e onças, ainda não tinham fugido para as moitas, à espera do incauto. As rolas tudo me faziam esquecer, uma única que matasse, pesava nos meus sonhos tanto quanto quarenta nduas arco-irizadas e outros tantos khende-khende enforcados nos laços invisíveis quando vinham debicar o barro preparado com sal, mais às perdizes laçadas nas sebes que protegiam a lavra.
Assim, apressava o passo, as rolas não esperam o preguiçoso, ou será o correr pela mata fora, nunca as alcançando, em seus voos de pau em pau. Esforçava a não intrusão de pensamentos maléficos à mente, os latidos dos cães na senzala cada vez mais distantes, quando o Cacimbo, tata Bangala, vindo não sei de onde, desceu sobre mim inesperadamente em abraço envolvente. O silêncio nasceu da árvore, da pedra e das penas de sumaúma que pendiam ao compasso do grito do cucu. Falou-me e tremi de medo, pensando que morreria e em breve estaria nos braços da sereia, bem entre as pedras e areis do fundo do riacho. Meus pés não ousaram dar mais um passo que fosse, invadido que me sentia dum canto doce, duma melodia de fascínios, em rendição total àquele que se me revelara não inopinadamente.
- Não temas, criança da esperança, sou a origem do rio, a consciência mandada dos antepassados, aquele que te ensinará os rumos do porvir-
E pasmado que fiquei!
Nunca antes ouvira tal voz, conhecera tal amigo, ainda que tudo em mim fosse animado e irrequieto. Naturalmente estendi os braços e acaricei mos meus dedos de criança o novo companheiro. Escorria-me entre as mãos e seu bafo meigo penetrava em todo o meu ser. Abri a boca no mais largo dos sorrisos de gratificação que, perdendo-se nos ares, foi o beijo albergador de toda a selva, o ósculo risonho das aves, o trovejar surdo dos punhos cerrados dos gorilas desflorando a virilidade de seus peitos cabeludos, o cacarejar agudo das galinhas do mato, os guinchos ensurdecedores dos macacos, os saltos acrobáticos e silvantes dos veados e das seixas. Agarrei tudo isso na minha felicidade e alegria e encarcerei-o para sempre no pensamento e na mente, prisioneiro do meu egotismo, escravo da minha razão de ser que, quando na viração do café no terreiro, olhava com inveja para a bicicleta amarela de ferro na qual o menino roceiro passava rolando em zigue-zagues da vaidade. Rolando, horas sem fim.
E nas noites de calor e luar, lá estava eu:
- Meu pai, porque não posso ter uma bicicleta assim?
E meu pai coçava um pé no outro, cuspia por entre os dentes nas mãos, como que arrefecendo qualquer pensamento.
- Ai filho meu, sempre a mesma pergunta! Será que ainda não compreendeste que nunca te poderei comprara uma bicicleta assim?
- Como não podes, meu pai?
Eu sabia, sem querer saber. Compreendia, sem desejar compreender. Digam-me, como poderia aceitar tal argumento quando já o observara fazer e executar outras coisas bem mais difíceis e inimagináveis? Uma vez vi meu pai, na sua cólera contra o roceiro, levantar o camião abarrotado de sacos de café e, tal uma pluma de viuvinha, projectá-lo contra o casarão da roça, tudo ruindo estraçalhado. O roceiro, ignóbil escaravelho, esperneava de fúria no chão lamacento e as andorinhas azuis desciam em voos razantes, arrancando-lhe os cabelos um a um. O milhafre enterrava as garras no ventre adunco e saia voando com as tripas purpúreas para alimentar as crias.
Se meu pai podia maravilhar-me com gestos assim, porque não poderia comprar-me a bicicleta?
- Como?- perguntava ele.
Para lhe mostrar que o que bastava era só desejar, me eis logo com a mais linda das bicicletas, não amarela, mas sim vermelho vivo, a cor da liberdade.
Quantas noites, à luz ensolarada da lua cheia, não os maravilhei em atravessando o terreiro do café, em enveredando por picadas anónimas que me conduziam aos mais recônditos dos desejos e lugares, tacteando a vertigem da velocidade? Fugava veloz na trilha dos meus desejos, das minhas revelações, montado na bicicleta avermelhada, o filho do roceiro desfazendo-se na inveja que o consumia. Sabia-me invencível, o dono da terra que pisava, atraía-me a força dos avós infindáveis. Porém, nos intervalos das escapas aos sonhos, cansei de pedir, cansei de chorar pela almejada e inacessível prenda.
Compreendem agora porquê esse meu riso a tata Bangala, no amplexo ao novo e fascinante amigo, albergou toda a selva?
- Não temas criança da esperança- ressoou de novo nos meus ouvidos- sou a consciências dos antepassados agora renascida, dá-me a tua mão e vem descobrir o que trás já ficou e o que para a frente falta. Vem comigo ao berço da luz.
Não duvidei por um momento. Como ousaria? Estendi a mão e fui elevado aos píncaros de uma mafumeira, que de alta nunca imaginara poder existir. Talvez estivesse tão cerca das estrelas, que se esticasse o braço colhê-las-ia, tal minha mãe colhia as laranjas raquíticas e solitárias da laranjeira, ao fundo do quintal do casarão do branco.
Por momentos pareceu-me estar a duvidar do que me acontecia e, assim, indaguei ao novo amigo como poderia alguém ser tão alto quanto ele, que ali me elevara pela mão?
- Quando se é toda a História de um povo, como tu o és, quando um ser representa todo o sofrimento e humilhação de um continente e os deseja revelar, como eu o sou, tem que ser o que sou.
Ai coitado de mim!
Por fim, adormeci nos seus braços, num ninho de enorme de mbemba, nos últimos ramos da mafumeira. Vi a ngana Lua acariciar-me e beijar-me o rosto. Quando pressentiu que eu estava a adormecer, num sopro apagou as estrelas, pirilampos eternos dos céus, espíritos dos que partiram morrendo em terras alheias, vagabundos do destino à procura do lugar que lhe pertencera em vida. A meio da noite despertei esfomeado e, ao simples constatar, o Pensamento trouxe-me um balaio cheio de iguarias onde, a rir de prazer, meti as mãos e retirei-as cheias de mandioca assada.
Que alegria!...
E seguidamente, de jinguba, oh tanta e tanta, milho torrado amarelento, banana pão aquecida de castanho ao rubro. Que pena que todas as crianças do mundo não pudessem saciar sua fome da maneira que eu o fazia. E tão repleto fiquei que, ao encostar a cabeça no rebordo do ninho e ao colo da Lua, mal me apercebi do Sono, Tata Kilu, a convidar-me para me deslocar ao seu kimbo, desejava que sua vasta família me conhecesse Disse-me que havia que partíssemos ao pestanejar do momento. E fomos, mais céleres ainda, sentados no lombo do javali-mor, cinza mel de cor, na boca do qual flamejavam oito dentes pontiagudos em forma de garfo. Galopamos sobre o pântano de lama até entrarmos numa mata frondosa de árvores gigantes que albergava, num labirinto de música e cor, o seu kimbo.
É verdade, como me lembro tão docemente que mal o javali-mor parara, milhares de crianças, umas alegres e sorridentes, outras tristes e carrancudas, par nós correram em jamais vista algazarra. Tata Kilu ergueu o báculo e todos, como que por magia, logo silenciaram.
- Trago-vos hoje um visitante a fim de que com alguns de vós participe de vossas viagens aos reinos do bem e do mal, da fantasia e do pesadelo. Tratem-no bem.
As crianças, que afinal vim a saber serem os Sonhos Bons e os Sonhos Maus, filhos do Sono, em batuque de arrepiar, levaram-me para o banho da purificação que me renderia gasoso e veloz tal o pensamento pensado. Antevia, pois, com incontida emoção, a viagem através das transparências dos desejos e segredos dos outros. Que viria a descobrir, que veria eu?
Logo após o banho, trouxeram-me de comer –outra vez, pensei admirado?- pitéu farto dos deuses, manjares de águas cristalinas. Folhas de mandioca rutilantes, gafanhotos diáfanos fritos, jinguna de asas opalinas que ainda esvoaçavam sôfregas para a vontade de liberdade. Maboques amarelos, gajajas perfumadíssimas e, para culminar, duas cabaças repletas de leite azedo e mel de mil abelhas enfeitiçadas, tão doce e espesso era.
- Agora está pronto para a viagem, para a jornada- disse Tata Kilu- já estendi o meu manto sobre metade do Mundo e os meus filhos partirão agora para o reino das
trevas, há muito que fazer. Por onde desejas começar, dou-te esse privilégio?
Como nunca antes crera ser possível entrar em qualquer sonho que não fosse o meu, constrangi-me momentaneamente.
- Desejo ver o meu pai, o meu avô e a nossa casa.
Não acabara de falar a última palavra e já irrompíamos vertiginosos o espaço, à garupa de um raio trovejante. Não contive o espanto e a alegria. Meu pai, sentado num banco, com o meu avô ao lado, seu pai. Entre eles, uma cabaça de marufu e um cestinho com jinguba torrada. O velho ancião, o avô, fumava um cachimbo tão gasto quanto ele, a minúscula brasa ardendo em cima. Sua cabeça era branca como a fuba kindele e suas barbas eram pernas longas da ágil aranha, entrançadas a perder nas agruras dos anos escravos, jingongo, malamba.
Por fora da casa, e encostada à parede de barro seco, uma bicicleta encarnada nova e reluzente. Não queria acreditar no que via! Seria que, sentado ali no ninho de mbemba, sonhava eu que meu pai me comprara a bicicleta, ou era ele que sonhava que a tinha comprado para mim? Em que sonho estava eu? Em pânico procurei pelo companheiro que me trouxera, mas já lá não estava. Seria então o sonho do meu pai, certamente.


O velho avô acenou para mim e da sua alva carapinha saltitaram estilhaços de fogo azul, pensamentos metaforizados no espaço, o seu amor pelo neto.
- Para quem acenas, senhor meu pai?- perguntou meu pai, alegre e curioso.
- Para o meu neto que ali vejo vir- respondeu o velho avô- . Descubro a felicidade em seu rosto, por certo que descobriu a bicicleta, reconheceu-a.
Deixei-me cair, leve tal um sorriso de sumaúma, ao lado da bicicleta. Entrei a pressa na casa, saudei o meu avô e ajoelhei-me aos pés do meu progenitor, pousando ele suas mãos em minha cabeça, em sinal de benção. Afagou-me, e suas palavras forma mais doces que mamão.
- Vai, meu filho, vai andar na tua bicicleta.
Oh ventos, oh aves, era só ver-me! Ufano, o mestre rei das bicicletas! Saí voando, transpondo montanhas, competindo nas savanas e nas florestas com o ngulunu e com o leopardo. Nos rios de toda a África, os bagres e os sapos pasmaram das minhas proezas, enquanto os caranguejos volteavam as pedras opalinas em suas correrias, para melhor me perceberem no ápice do relampejo.
Meu pai, agora já na sua esteira, contemplava embevecido o prodígio que gerara. O velho avô abanava, desacreditando, a alva cabeça sobre a qual uma leva de borboletas dançava seu batuque em ritmo alucinado.
Inseguro, outra vez na garupa do relâmpago, maldisse o momento que tudo esvanecera. Meu avô, meu pai, a bicicleta. Olhei para o companheiro e estarreci. A cara alegre e jovial do Sonho Bom, fora substituída pela carranca de seu irmão Sonho Mau, o esgar do pesadelo, que escorrega pelas noites contorcidas de todos.
E quem era então aquele velho que ora descortinava, curvado sob o peso de um latão de água, mal podendo caminhar? Insisti na olhada só para nela reconhecer meu pai, castigado pelos árduos anos da vida, tão velho e gasto, ainda labutando. Assustei-me, cerrei os olhos, socorri-me em vão na angústia, mesmo se o que tivesse que ver já assim o fora determinado. Recusei e recusei, procurei pelo Sonho Bom, olvidando que era no Mau que me encontrava.
E assim, vi meu velho pai deitado na tarimba de sua cubata de tamanhos tímidos. Era madrugada na roça. Apenas o alvor celestial se esboçara, já o galo rompia as brumas teimosas, atirando para as senzalas vizinhas o estridente grito despertador, em sua voz de falsete. Meu pai, ainda me admirava de o ver velho, tossia em voz rouca e remexia-se, sabendo que, logo de seguida, teria que abandonar o prazer do repouso e do cobertor esfarrapado, para badalar o sino, um troço de linha férrea pendurado ao fundo do secador de café. Badaladas agudas que obrigavam os cães a latir e uivar desmedidamente.
A rapsódia da vida diurna iniciava. As senzalas acendendo ao quotidiano, os acampamentos gemendo dos gritos e palavras alegres dos contratados afiando suas catanas, no desenrolar de um destino inconsciente.
Estranhava sentir todas estas emoções, como que se já as tivesse vivido, apalpado. Hoje, sentado na escrivaninha e compondo este conto, ao relembrar os acontecimentos, tenho a noção nítida de que as emoções que experimento se devem à imaginação pura da infância e ao poder de criar e escapar do peso angustiante que a natureza, a floresta, empurrou sobre a mente infantil. Relembro a magia cristalina da inocência, que lhes dava sopro e calor, feita deusa criando novas vidas. Só mais tarde, no desvirginar da poesia, no crescer, no apagar do sopro escorregadio do vento farfalhante nas folhas das palmeiras, percebi a angústia daquilo que já não mais volta, badaladas num ferro pendurado, que desfalecem uma após uma, cada uma levando, então, o anúncio de vida a centenas largas de pessoas adormecidas.
Nessa altura, era então o trajar da selva com todos seus sons, em vaidade não controlada e irremediável, da qual me enamorei louco perdido., derretendo-me feito água em seus braços verdes libidinosos, a minha amada, o meu ar respirado.
Meu pai dirigia-se após, para o quintal do casarão, reacendia o fogo adormecido e no qual ferveria a água para consumo da família do roceiro. Atados a uma palmeira, dois enormes macacos saudavam-no colericamente em guinchos horripilantes, o ódio ensinado e atiçado diariamente para que não houvesse negros no quintal. Assim era a vida, ou talvez assim fosse a morte, onde até aos animais se incutiam as diferenças de castas, as disparidades epidérmicas, os desníveis sociais, enfim, todos os declives que conscientemente o ser humano escolhe para separar-se um do outro, irmão contra irmão. Como se a terra não nos devorasse por igual, como se a fogueira dantesca não nos carbonizasse sem parcimónia, no derradeiro adeus mundano. Quem não responde ao chamamento dos antepassados? Quem?
Novamente senti um profundo calafrio, consumido em cataratas de incertezas no meu desamparo, e desejei regressar ao meu ninho de mbemba, envolto no bafo de nga Lua e da paz benigna, nos braços aconchegantes de tata Ngna Kixibu.
Num último e tímido relance de olhos, o futuro esculpiu-me em segredo de desconfiança, um cadáver banhado em poça de sangue rubro, desenhou-me a pinceladas grotescas a brusquidão das mulheres rebolando na cinza amontoada, fundiu-me nas crateras inimagináveis do ódio milhares de panos multicoloridos e cabelos arrancados em uivos de desespero, óbito inaceitável.
Estonteado, fugindo ao pesadelo que sabia ser verdadeiro, compus uma sinfonia de urros e guinchos dos macacões, e ordenei ao charco de sangue que se erguesse para que lhe desse forma humana, forma do Homem, montanha de sofrimento, no qual talhei a cutiladas trágicas o rosto do meu velho pai., lata de água na cabeça, escultura perene e inolvidável, tombado entre os macacos de dentes afiados, pingando sangue quente, o aroma do sacrifício para um quintal livre de pretos indesejáveis.
E no ápice do renascer, no momento da tomada de consciência, eis-me o raio decepador, o paladar da justiça no porvir.
Nas palmeiras do quintal os pássaros saltitam em dança frenética e cúmplice. Nos céus ameaçadores as nuvens escondem a pressas o sol para que não veja o tiro partir da pistola do roceiro e a bala a penetrar-me profunda na coxa, enquanto a longa jornada do velho começara inopinadamente, o caminho verdejante para o fundo da lagoa era extenso, os macacos afiavam ainda os dentes em seu corpo inerte.
E eu? Caído no quintal, a olhar para a ferida sangrenta na coxa, com a catana ainda segurada na mão, sabia que também deveria partir para outra viagem.
- Ekué, Ekuá!... muana’etu wa fuidi- choravam olhando para mim as duas lavadeiras.
O vento soprou exausto, senti sua ligeira carícia no ombro. Olhei e dei de caras com Tata Kilu, em seu kimbo.
- O dia ameaça levantar-se, vais regressar ao teu ninho e a peneira das estrelas do esquecimento passará sobre teus olhos e vendá-los-á até ao momento do acontecimento, como deve ser.
Já o sol brilhava quando despertei, fresco e excitado.

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